Eu era apenas um observador mas todos me chamavam de estagiário.
A atividade proposta era um desenho qualquer, acho que explorando o pontilhismo.
Classe com umas 20 pessoas, média de idade de uns 30 anos com 3 ou 4 com uns 19 aninhos, puxando a média pra baixo e 2 senhoras de mais de 60, puxando a média pra cima.
Todos compenetrados, fazendo seus trabalhos.
Um garota puxa conversa com outra, sem que nenhuma deixasse de fazer o desenho enquanto falava:
"- Sabe a fulana?"
"- A caixa do shopping?"
"- É, ela mesma."
"- Que que tem?"
"- Adivinha?"
"- Não sei. Fala aí."
"- Grávida."
"- Tá brincando!"
Esse papo rolava em voz alta entre as duas enquanto toda a classe permanecia em silêncio, todos trabalhando, inclusive as duas que dialogavam.
"- Menina! Ela sabe quem é o pai?"
"- Ela disse que é um ex-dela."
"- Vai casar?"
"- Não sabe. Diz que tá pensando no que fazer."
"- Dureza. Mas, e o cara? Já sabe?"
"- Ela nem sabe se vai contar."
"- Ué, por quê?"
"- Ah, ela diz que ele pode mais é atrapalhar tudo. É um pé-rapado lá do bairro dela."
Eu estava achando a conversa, digamos, interessante. O EJA tem mesmo esse diferencial - jovens e adultos que já estão tocando a vida pra frente, com tudo o que ela traz.
O que me chamava muito a atenção é que elas conversavam em voz alta, enquanto trabalhavam, todos os outros ouviam e ninguém parecia não dar a mínima pro assunto. Até a professora fazia suas marcações no diário. Ao olhar pra mim, vendo minha cara de espanto, riu como que dizendo "é assim mesmo..."
"- Pobre é sempre a mesma coisa: transou com outro pobre, gravidez na certa!"
"- "Cê" viu a Marquesine? Essa foi esperta. Mesmo que não fique com o Neymar, tá com a vida feita."
"- Se fosse a gente transando com alguém rico, nunca que engravidava...."
A partir desse dia, tive que repensar muitas das atividades que eu havia planejado. Desconsiderar aquelas turmas em suas necessidades e expectativas exatas seria muito anti-didático. Pra não dizer burro.
Classe com umas 20 pessoas, média de idade de uns 30 anos com 3 ou 4 com uns 19 aninhos, puxando a média pra baixo e 2 senhoras de mais de 60, puxando a média pra cima.
Todos compenetrados, fazendo seus trabalhos.
Um garota puxa conversa com outra, sem que nenhuma deixasse de fazer o desenho enquanto falava:
"- Sabe a fulana?"
"- A caixa do shopping?"
"- É, ela mesma."
"- Que que tem?"
"- Adivinha?"
"- Não sei. Fala aí."
"- Grávida."
"- Tá brincando!"
Esse papo rolava em voz alta entre as duas enquanto toda a classe permanecia em silêncio, todos trabalhando, inclusive as duas que dialogavam.
"- Menina! Ela sabe quem é o pai?"
"- Ela disse que é um ex-dela."
"- Vai casar?"
"- Não sabe. Diz que tá pensando no que fazer."
"- Dureza. Mas, e o cara? Já sabe?"
"- Ela nem sabe se vai contar."
"- Ué, por quê?"
"- Ah, ela diz que ele pode mais é atrapalhar tudo. É um pé-rapado lá do bairro dela."
Eu estava achando a conversa, digamos, interessante. O EJA tem mesmo esse diferencial - jovens e adultos que já estão tocando a vida pra frente, com tudo o que ela traz.
O que me chamava muito a atenção é que elas conversavam em voz alta, enquanto trabalhavam, todos os outros ouviam e ninguém parecia não dar a mínima pro assunto. Até a professora fazia suas marcações no diário. Ao olhar pra mim, vendo minha cara de espanto, riu como que dizendo "é assim mesmo..."
"- Pobre é sempre a mesma coisa: transou com outro pobre, gravidez na certa!"
"- "Cê" viu a Marquesine? Essa foi esperta. Mesmo que não fique com o Neymar, tá com a vida feita."
"- Se fosse a gente transando com alguém rico, nunca que engravidava...."
A partir desse dia, tive que repensar muitas das atividades que eu havia planejado. Desconsiderar aquelas turmas em suas necessidades e expectativas exatas seria muito anti-didático. Pra não dizer burro.