quarta-feira, 23 de outubro de 2013

No EJA a conversa é outra....

Foi numa classe do EJA. Uma das primeiras vezes em que participei das aulas noturnas de educação artística da professora Simone Carniel.
Eu era apenas um observador mas todos me chamavam de estagiário.
A atividade proposta era um desenho qualquer, acho que explorando o pontilhismo.
Classe com umas 20 pessoas, média de idade de uns 30 anos com 3 ou 4 com uns 19 aninhos, puxando a média pra baixo e 2 senhoras de mais de 60, puxando a média pra cima.
Todos compenetrados, fazendo seus trabalhos.
Um garota puxa conversa com outra, sem que nenhuma deixasse de fazer o desenho enquanto falava:
"- Sabe a fulana?"
"- A caixa do shopping?"
"- É, ela mesma."
"- Que que tem?"
"- Adivinha?"
"- Não sei. Fala aí."
"- Grávida."
"- Tá brincando!"
Esse papo rolava em voz alta entre as duas enquanto toda a classe permanecia em silêncio, todos trabalhando, inclusive as duas que dialogavam.
"- Menina! Ela sabe quem é o pai?"
"- Ela disse que é um ex-dela."
"- Vai casar?"
"- Não sabe. Diz que tá pensando no que fazer."
"- Dureza. Mas, e o cara? Já sabe?"
"- Ela nem sabe se vai contar."
"- Ué, por quê?"
"- Ah, ela diz que ele pode mais é atrapalhar tudo. É um pé-rapado lá do bairro dela."
Eu estava achando a conversa, digamos, interessante. O EJA tem mesmo esse diferencial - jovens e adultos que já estão tocando a vida pra frente, com tudo o que ela traz.
O que me chamava muito a atenção é que elas conversavam em voz alta, enquanto trabalhavam, todos os outros ouviam e ninguém parecia não dar a mínima pro assunto. Até a professora fazia suas marcações no diário. Ao olhar pra mim, vendo minha cara de espanto, riu como que dizendo "é assim mesmo..."
"- Pobre é sempre a mesma coisa: transou com outro pobre, gravidez na certa!"
"- "Cê" viu a Marquesine? Essa foi esperta. Mesmo que não fique com o Neymar, tá com a vida feita."
"- Se fosse a gente transando com alguém rico, nunca que engravidava...."
A partir desse dia, tive que repensar muitas das atividades que eu havia planejado. Desconsiderar aquelas turmas em suas necessidades e expectativas exatas seria muito anti-didático. Pra não dizer burro.



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